MENU
Close

Quem começa Jiu-Jitsu há pouco tempo, mais cedo ou mais tarde depara-se com esta divisão: Gi, o treino de kimono, e No-Gi, o treino sem ele, normalmente com roupa justa tipo licra e calções. A pergunta que costuma seguir-se é qual dos dois é "mais difícil" ou "mais completo", como se fossem versões concorrentes da mesma coisa. Na prática, são primos próximos, não rivais, e a pergunta mais útil não é qual escolher, mas o que cada um ensina que o outro não consegue.
O Gi introduz uma variável que muda tudo: as pegas. Com kimono, é possível agarrar a manga, a lapela, a calça, o cinto, e construir controlo a partir dessas pegas de formas que simplesmente não existem sem tecido para segurar. Isto torna o jogo mais lento em geral, mais baseado em controlo posicional e paciência, porque cada pega é uma ferramenta que precisa de ser negociada. É também, por essa razão, considerado por muitos instrutores como a base mais sólida para aprender os fundamentos: obriga a pensar em posição e controlo antes de depender de velocidade.
O No-Gi remove essas pegas e, com isso, acelera tudo. Sem tecido para agarrar, o jogo depende mais de pressão corporal direta, de velocidade de transição e de posições de controlo mais próximas do corpo, como o clinch ou o underhook. É também o formato mais próximo de outras artes de agarre como a luta livre ou o wrestling, e é o formato usado em MMA, o que explica porque muitos praticantes com objetivos de desporto de combate misto preferem focar-se ali.
Sobre se as técnicas são diferentes, a resposta é: parcialmente. Os princípios fundamentais, alavanca, posição antes de submissão, controlo do centro de gravidade do adversário, são universais e transferem-se completamente entre os dois formatos. O que muda são as ferramentas específicas para chegar lá. Uma raspagem que depende de puxar a manga não existe em No-Gi. Uma passagem de guarda que depende de agarrar a calça do adversário precisa de ser adaptada ou substituída. Por isso, um praticante que treina apenas um dos dois formatos não está a aprender uma arte marcial incompleta, mas está, sem dúvida, a deixar ferramentas por explorar.
Sobre a dificuldade, esta é provavelmente a pergunta mais mal colocada de todas. Não é que um seja objetivamente mais difícil do que o outro, é que exigem qualidades diferentes. Gi exige mais paciência técnica, mais compreensão de detalhes de pega, mais jogo posicional lento. No-Gi exige mais explosão, mais condicionamento cardiovascular, mais decisões rápidas sob fadiga. Praticantes com corpos mais explosivos e menos paciência tendem a preferir No-Gi. Praticantes mais analíticos, que gostam de resolver problemas devagar, tendem a preferir Gi. Nenhuma das preferências é superior, refletem apenas personalidades diferentes dentro do mesmo desporto.
Quanto a treinar só um dos dois, é perfeitamente possível construir uma carreira sólida assim, e muitos competidores de alto nível especializam-se num só formato durante anos. Mas para quem está a começar, vale a pena experimentar os dois nos primeiros tempos, antes de decidir onde investir mais foco. A razão é simples: cada formato revela lacunas que o outro esconde. Alguém que depende demasiado de pegas de kimono descobre isso rapidamente na primeira aula de No-Gi. Alguém que depende de velocidade e força em No-Gi descobre, ao vestir o kimono, que precisa de aprender a controlar sem depender só disso.
A pergunta certa, no fim, não é qual dos dois é melhor. É o que queres do teu Jiu-Jitsu, autodefesa, competição, MMA, ou simplesmente diversão e saúde a longo prazo, e treinar o formato, ou os dois, que melhor serve esse objetivo.