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Lesões: o preço que se paga por treinar mal, não por treinar

Lesões: o preço que se paga por treinar mal, não por treinar

Lesões: o preço que se paga por treinar mal, não por treinar

Existe uma ideia perigosa e bastante espalhada no Jiu-Jitsu: a de que lesões são inevitáveis, quase um rito de passagem. Não são. Lesões acontecem, sim, com mais frequência do que em desportos sem contacto, mas a esmagadora maioria não resulta do Jiu-Jitsu em si. Resulta de más decisões dentro dele: ego, falta de comunicação, técnica mal executada sob pressão, ou simplesmente ignorar sinais que o corpo já estava a dar há semanas.

As lesões mais comuns não surpreendem quem treina há algum tempo. Dedos e mãos sofrem com pegas de kimono e quedas mal amparadas. Joelhos sofrem sobretudo com torções, muitas vezes por resistir a uma passagem de guarda em vez de se ajustar à posição. Ombros deslocam-se com finalizações aplicadas de forma abrupta ou resistidas até ao limite errado. Pescoço e costas sofrem menos das finalizações em si, e mais da acumulação de más posturas ao longo de anos de treino sem cuidado com a mobilidade fora do tatame. Nenhuma destas lesões é uma fatalidade do desporto. Quase todas partilham uma causa comum: alguém continuou quando devia ter parado.

Prevenir começa antes de pisar o tatame. Aquecer bem, sobretudo articulações que sofrem mais desgaste, como ombros, joelhos e pescoço, reduz significativamente o risco de lesão súbita. Mas prevenir é também, e sobretudo, uma questão de atitude durante o treino. Resistir menos, ceder mais cedo a posições desconfortáveis, bater sem hesitação, escolher parceiros de treino que respeitam o próprio nível: estas escolhas, feitas repetidamente ao longo de anos, fazem mais pela longevidade de um praticante do que qualquer suplemento ou equipamento de proteção.

Quando treinar e quando parar é talvez a decisão mais difícil de todas, porque o Jiu-Jitsu tem uma cultura forte de resiliência que, levada ao extremo, se torna perigosa. Treinar com uma dor aguda, do tipo que muda a forma como te movimentas, é quase sempre um erro. Treinar com desconforto crónico e controlado, o tipo que a maioria dos praticantes com anos de tatame carrega, é uma decisão mais pessoal, mas deve sempre incluir modificação do treino, não teimosia. A diferença entre um bom praticante de longo prazo e alguém que desiste aos poucos anos por lesão atrás de lesão costuma estar exatamente aqui: saber quando adaptar em vez de insistir.

Para quem já chega à academia com uma lesão prévia, seja de outro desporto ou de um treino anterior, a resposta não é necessariamente parar. É comunicar. Um bom instrutor sabe adaptar o treino de alguém com uma lesão específica, seja evitando certas posições, seja limitando a intensidade do sparring nessa área. O erro mais comum não é treinar lesionado, é treinar lesionado em segredo, sem avisar o parceiro de treino nem o professor, na esperança de que ninguém repare. Isso quase sempre agrava o problema.

Proteger-se passa também por equipamento simples: tape nos dedos para quem já tem histórico de lesões nas mãos, joelheiras para quem sente instabilidade, e sobretudo, parceiros de treino que sabem regular a própria intensidade consoante quem têm à frente. Um bom parceiro de sparring não é o que finaliza mais rápido. É o que sai do treino sem deixar ninguém pior do que estava antes.

No fim, o Jiu-Jitsu praticado com inteligência é um dos desportos mais sustentáveis a longo prazo que existem, precisamente porque depende mais de técnica do que de força

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