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Afinal o que faz as pessoas praticarem Jiu-Jitsu?

Afinal o que faz as pessoas praticarem Jiu-Jitsu?

Afinal o que faz as pessoas praticarem Jiu-Jitsu?

Há uma pergunta que todo o principiante de Jiu-Jitsu já ouviu de um amigo, um familiar, um colega de trabalho. Costuma vir com uma sobrancelha levantada e um tom a meio caminho entre a curiosidade e a preocupação: "mas tu pagas para isso?" Pagas para ires a um tapete, vestires um pijama grosso e deixares outra pessoa apertar-te o pescoço até quase não conseguires respirar. Visto de fora, não faz sentido nenhum. Visto de dentro, faz mais sentido do que quase tudo o resto que fazemos com o nosso tempo livre.

O Jiu-Jitsu Brasileiro nasceu como um sistema de autodefesa, mas o que faz as pessoas voltarem, semana após semana, ano após ano, raramente é a defesa pessoal. É outra coisa. É a sensação rara e quase extinta na vida adulta de estar completamente presente. Quando alguém está a tentar finalizar-te, não há espaço mental para pensar no trabalho, no email por responder ou na conversa que correu mal ontem. O corpo exige toda a tua atenção, e essa exigência, por mais estranho que pareça, é um alívio.

Há também a questão do ego, que o tatame trata sem cerimónia. Um advogado, uma balconista, um estudante universitário no mesmo tapete, onde nenhum título importa. O que importa é se sabes defender-te de uma estrangulação ou não. Essa igualdade brutal e sincera é rara no mundo lá fora, onde tanto do que fazemos depende de aparências, hierarquias e cargos. No Jiu-Jitsu, ou sabes ou não sabes, e ninguém se rala com o resto.

Hélio Gracie, um dos fundadores do sistema tal como o conhecemos hoje, dizia uma coisa que ainda hoje serve de bússola para quem ensina a arte: que o propósito não era criar lutadores capazes de fazer mal a alguém, mas pessoas capazes de resolver conflitos sem precisarem de o fazer. Isto não é um slogan bonito que usamos para pendurar na parede do ginásio. É, na prática, o que se vê acontecer com quem treina a sério durante anos. Quem passa tempo suficiente a ser dominado no tapete perde o interesse em dominar pessoas fora dele. A confiança que se ganha ali não precisa de ser demonstrada lá fora. Já foi testada, semana após semana, contra gente que sabe mais do que nós.


"O propósito não era criar lutadores capazes de fazer mal a alguém, mas pessoas capazes de resolver conflitos sem precisarem de o fazer"


E depois há as amizades, que surgem de um sítio estranho: a vulnerabilidade partilhada. Não há muitos contextos na vida adulta em que duas pessoas se colocam fisicamente vulneráveis uma perante a outra, de forma repetida e voluntária, sem que isso seja um problema. No Jiu-Jitsu isso é o ponto de partida. Ficas preso, ficas exposto, dás os três tapas quando é preciso , e a pessoa que te finalizou ajuda-te a levantar a seguir. Essa dinâmica cria um tipo de proximidade que é difícil de replicar noutro lado. Não é raro ouvir praticantes dizerem que os amigos mais próximos da vida adulta vieram do tatame, não do trabalho nem da faculdade.

Sobre se é para todos, a resposta honesta é: quase. Não é preciso ser atlético, nem jovem, nem ter qualquer histórico de desporto. É preciso, isso sim, alguma disponibilidade para ser mau em alguma coisa durante bastante tempo antes de começar a ser bom. Isso, mais do que a condição física, é o que afasta a maioria das pessoas de continuar. Quem consegue atravessar essa fase inicial, normalmente desconfortável e um pouco humilhante, costuma ficar.



Se procuras uma primeira arte marcial, o Jiu-Jitsu tem uma vantagem clara: não depende de força nem de velocidade para funcionar. Depende de alavanca, de posicionamento, de paciência. É por isso que costuma ser recomendado a quem começa do zero, sem qualquer histórico de desporto de combate. Não é preciso saber dar um murro. É preciso estar disposto a resolver problemas com o corpo, um de cada vez, durante o resto da vida.

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