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Há uma pergunta que quase todos os pais fazem antes de inscrever um filho numa academia de Jiu-Jitsu, e é justa: vou pôr o meu filho a aprender a lutar? A imagem que vem à cabeça é de agressividade, de confronto, talvez até de uma criança que volta da escola mais propensa a resolver conflitos à força do que com palavras. É uma preocupação legítima e merece uma resposta honesta, não uma resposta de marketing.
A experiência não só da nossa escola Saitama mas também de quem trabalha há anos com crianças no tatame costuma contar uma história diferente. O Jiu-Jitsu, praticado com bons instrutores, não ensina uma criança a ser mais violenta. Ensina-a, sobretudo, a saber o que fazer quando o corpo entra em contacto com outro corpo de forma indesejada, o que por si só já é uma ferramenta de segurança valiosa. Mas o que muda mais visivelmente numa criança que treina não é a capacidade física. É a postura. Criança que passa meses a ser corrigida, a errar à frente dos colegas, a ganhar e perder no mesmo dia, desenvolve uma relação diferente com a frustração. Aprende que falhar não é o fim de nada, é só o próximo passo. Essa lição, mais do que qualquer técnica de imobilização, é o que fica para a vida.
"O Jiu-Jitsu ensina-a, sobretudo, a saber o que fazer quando o corpo entra em contacto com outro corpo de forma indesejada"
Há também algo que raramente se fala fora do tatame: a estrutura social que se forma entre crianças de idades diferentes. Numa aula típica, um miúdo de oito anos treina ao lado de um de catorze, e o mais velho, sem que ninguém lhe peça isso formalmente, acaba por assumir um papel de proteção. Mostra o caminho até ao balneário, ajuda a apertar o cinto, avisa quando é para não fazer determinado movimento com tanta força. Muitas famílias descrevem este efeito como o filho ter ganho um irmão mais velho, só que fora de casa. Nalguns casos, é o único espaço onde a criança tem esse tipo de referência mais velha, atenta, mas sem ser um adulto.
A questão da agressividade merece um esclarecimento mais direto. Uma criança que aprende a imobilizar alguém sem lhe bater, a controlar uma situação sem magoar, tende a levar essa lógica para fora do tatame. Não porque a arte marcial pregue isso em teoria, mas porque é isso que o corpo pratica, semana após semana. Uma criança que sabe genuinamente que pode controlar uma situação de conflito físico, sem violência, costuma ter menos necessidade de a demonstrar. O oposto, uma criança sem qualquer ferramenta, é que tende a reagir de forma desproporcional quando confrontada, precisamente porque não sabe medir a própria força nem tem experiência de perder o controlo em segurança.
Sobre o ambiente ser hostil, a resposta depende inteiramente da academia e dos instrutores, tal como aconteceria em qualquer outro desporto. A nossa academia tem regras claras, supervisão constante, e uma cultura onde ganhar não é celebrado mais do que persistir. As crianças divertem-se, e divertem-se de verdade, porque o Jiu-Jitsu para os mais novos costuma incluir jogos, quedas, muita interação física saudável e uma sensação de conquista sempre que aprendem algo novo. Não é raro ver crianças a pedir aos pais para chegar mais cedo à aula, só para ter mais tempo de tatame com os amigos.
Fica a pergunta natural: porque não futebol, então? A resposta não é que um seja melhor do que o outro, é que servem propósitos diferentes. O futebol ensina trabalho de equipa, coordenação, o prazer coletivo de marcar um golo. O Jiu-Jitsu ensina algo mais individual: a criança aprende a resolver problemas sozinha, num espaço de um metro quadrado, sem poder contar com ninguém para a ajudar naquele momento específico. Aprende a lidar com o desconforto físico de estar debaixo de outra pessoa e a manter a calma mesmo assim. São competências complementares, não concorrentes, e muitas famílias optam por dar às crianças os dois, precisamente por essa razão.

No fim, a pergunta que fica não é se o Jiu-Jitsu torna crianças violentas. É se as torna mais capazes, mais confiantes, e mais equipadas para lidar com o mundo sem precisar de recorrer à força para se fazerem ouvir. Para a maioria das crianças que passam pelo tatame, a resposta que os pais acabam por testemunhar é essa.